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Estelionato: tipos, penas e mudanças na lei em 2026

Cadeado aberto sobre teclado de computador iluminado em vermelho e verde

O estelionato ocupa hoje posição central entre os crimes patrimoniais praticados no Brasil, especialmente após a popularização do Pix, das redes sociais, das plataformas de comércio eletrônico e dos serviços financeiros digitais. Ao mesmo tempo, relações contratuais malsucedidas, investimentos com prejuízo e dívidas civis são frequentemente levados à polícia como se toda frustração econômica demonstrasse fraude. A correta classificação depende de saber se o agente, desde o início, empregou meio fraudulento para induzir ou manter a vítima em erro e obter vantagem ilícita.

O que caracteriza o crime de estelionato?

O artigo 171 do Código Penal descreve a obtenção, para si ou para terceiro, de vantagem ilícita em prejuízo alheio mediante artifício, ardil ou outro meio fraudulento. A estrutura do delito exige uma sequência: fraude, erro da vítima, disposição patrimonial, vantagem ilícita e prejuízo. A pena do estelionato comum é de reclusão de um a cinco anos e multa, sem prejuízo de modalidades específicas e causas de aumento.

O elemento que costuma separar o crime do mero inadimplemento é a fraude antecedente. Quem celebra contrato verdadeiro, executa parte substancial da obrigação e depois deixa de pagar em razão de crise financeira pode responder civilmente, mas não necessariamente por estelionato. Em sentido oposto, identidade falsa, documentação forjada, promessa sabidamente inexequível, ocultação deliberada de impedimento essencial ou simulação de negócio inexistente podem revelar que a vítima foi enganada desde a formação da relação.

Quais são as formas mais frequentes de estelionato?

O Código Penal contempla hipóteses como venda de coisa alheia como própria, alienação fraudulenta de bem gravado ou litigioso, fraude na entrega de coisa, fraude para recebimento de seguro e emissão de cheque sem provisão. Na prática atual, ganham destaque a falsa central bancária, clonagem ou invasão de contas, falso investimento, anúncio inexistente, boleto adulterado, golpe do intermediário, fraude em marketplace e manipulação da vítima para realização de Pix. São situações que integram o campo dos crimes patrimoniais e privados.

A fraude eletrônica, prevista no parágrafo 2º-A do artigo 171, possui pena de reclusão de quatro a oito anos e multa. A modalidade alcança fraudes cometidas com informações fornecidas pela vítima ou por terceiro induzido a erro por redes sociais, contatos telefônicos, e-mails, duplicação de dispositivo eletrônico, aplicações de internet ou meio análogo. Se houver utilização de servidor mantido fora do Brasil, a pena pode ser aumentada, conforme as condições legais.

O que mudou com a Lei nº 15.397/2026?

A Lei nº 15.397/2026 promoveu alterações relevantes no tratamento dos crimes patrimoniais. No estelionato, incluiu expressamente a cessão de conta bancária, gratuita ou onerosa, para trânsito de recursos destinados ao financiamento de atividade criminosa ou dela provenientes. A figura busca alcançar a chamada conta laranja, mas a responsabilização continua exigindo prova dos elementos do tipo: o simples recebimento de valor desconhecido ou o empréstimo de conta em contexto legítimo não autoriza presumir ciência da finalidade criminosa. Quando os valores têm origem em infração penal anterior, a discussão pode alcançar também o risco de lavagem de dinheiro.

A mesma lei ampliou a redação da fraude eletrônica e revogou o parágrafo 5º do artigo 171, que condicionava, como regra, a persecução à representação da vítima. Para fatos posteriores à mudança, o estelionato voltou a ser tratado como crime de ação penal pública incondicionada. A incidência sobre fatos anteriores exige análise temporal individualizada, porque a exigência de representação possuía conteúdo potencialmente mais favorável ao investigado.

O Brasil registrou mais de 2,2 milhões de estelionatos em 2025

O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em julho de 2026, registrou 2.261.055 ocorrências de estelionato em 2025, considerando fraudes tradicionais e eletrônicas. O levantamento apontou crescimento de 429,8% em relação a 2018 e consolidou o estelionato como um dos principais problemas patrimoniais do País. Esses dados explicam o endurecimento legislativo e o aumento da atuação de delegacias especializadas, instituições financeiras e núcleos de combate a crimes cibernéticos.

O volume elevado também recomenda cautela contra conclusões automáticas. Investigações digitais trabalham com IPs, identificadores de aparelhos, registros de acesso, dados de contas bancárias, cadastros de linhas telefônicas e rastreamento de transferências. Contas podem ser abertas com documentos falsos, aparelhos podem ser compartilhados e valores podem passar por várias pessoas. A prova deve conectar o acusado à fraude e demonstrar sua participação consciente, não apenas a titularidade formal de uma conta ou linha.

Como vítima e investigado devem preservar provas?

A vítima deve guardar conversas completas, anúncios, e-mails com cabeçalhos, comprovantes, chaves Pix, dados bancários, números de telefone, URLs e registros de atendimento. Também deve comunicar rapidamente a instituição financeira para avaliar o Mecanismo Especial de Devolução do Pix e registrar a ocorrência. Capturas isoladas, editadas ou sem contexto podem dificultar a reconstrução do golpe.

O investigado precisa preservar aparelhos, contratos, registros de localização, comunicações e documentos capazes de explicar a operação. A defesa criminal deve pedir acesso ao material, conferir a cadeia de custódia das provas digitais, verificar a legalidade de acessos e quebras de sigilo e identificar se houve reconhecimento pessoal ou digital pouco confiável. Em disputas contratuais, documentos que demonstrem execução, pagamentos parciais, tentativa de solução e ausência de fraude inicial podem ser decisivos.

Perguntas frequentes sobre estelionato

Não pagar uma dívida é estelionato?

Em regra, não. O inadimplemento é questão civil. Ele pode assumir natureza penal quando a obrigação foi criada por meio de fraude preordenada para obter vantagem ilícita, circunstância que deve ser provada.

Emprestar uma conta bancária passou a ser sempre crime?

Não. A nova figura legal exige que a conta seja cedida para trânsito de recursos destinados a atividade criminosa ou dela provenientes. A acusação deve demonstrar a situação típica e o elemento subjetivo, sem responsabilidade automática do titular.

É possível recuperar dinheiro transferido por Pix?

Há mecanismos bancários de bloqueio e devolução em situações de fraude, mas o resultado depende da rapidez da comunicação e da existência de saldo. Medidas policiais e judiciais também podem ser avaliadas para rastrear valores, preservar dados e buscar reparação.

Atuação jurídica

A Weiler Sociedade de Advogados atua em crimes patrimoniais e privados, incluindo estelionato comum e eletrônico, fraudes empresariais, bloqueios de valores e investigações baseadas em provas digitais. Conheça a atuação do escritório.

Conteúdo informativo, atualizado em 20 de agosto de 2026. Não substitui a análise individualizada da documentação de cada caso. Referências a investigações em curso preservam a presunção de inocência.